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O GRITO DO INIMIGO
O GRITO DO INIMIGO
AutorEduardo Mesquita Email:Email
CLÁSSICOS NASCEM TODOS OS DIAS

Cartaz do filme

 

Quando iniciei essa atividade na Dynamite me comprometi a falar de algumas coisas que eu gosto bastante (como a apresentação lá embaixo menciona) e uma dessas coisas é cinema. Melhor dizendo, filmes. Não gosto muito de cinema porque as pessoas costumam ser muito barulhentas, especialmente juntas em bandos e em momentos de lazer.

Gosto de ver bons filmes e não sou nenhum expert ou estudioso do assunto, apenas um consumidor razoável que se delicia com a arte. E hoje quero falar de um desses filmes, que mesmo sendo recente já se tornou uma obra prima, na minha opinião de usuário.

Isso porque algumas coisas não são como nós imaginamos. Stress por exemplo, que você vive dizendo que tem ou que sente.... você não sabe do que está falando! Martin Scorsese é assim também.. é o tipo do cara que nós sempre pensamos que "pronto!", já está pronto pra morrer, porque já fez coisas maravilhosas e belas, e que será impossível ele se superar. Ele se superou: assistam "Vivendo no Limite" (Bringing out the dead), com Nicholas Cage, John Goodman e Patricia Arquette. Assistam. É de 1999, baseado no livro de Joe Connely que é médico em Nova Iorque e nele novamente Scorsese conta com o parceiro Paul Schrader, que foi roteirista em "Taxi Driver". E novamente os dois destroem.

Além de tantas boas referências o filme ainda conta com uma câmera nervosa, alternando momentos doces com momentos de pura psicodelia e fúria, embriagando os espectadores e conduzindo uma trama inusitada.

Nicholas Cage

 

Corpos deixam marcas...

Nick Cage é Frank Pierce, um paramédico. Eu costumo gostar muito da interpretação dele ("Coração Selvagem" é bacaníssimo!), mesmo tendo sempre a impressão de que ele é um puta canastrão que escolhe bons papéis, então pra variar ele me impressiona na interpretação, prestem atenção na carga dramática que ele consegue expressar em momentos onde só seu olhar cansado (ou lunático) tem permissão para falar. Frank Pierce está estressado. Imaginem o trabalho dele, lidar com morte, pacientes terminais e mortos.

 

O pior horário é entre 5 e 6 da manhã. Perto de amanhecer. Quando penso que posso fechar os olhos e esquecer.

 

Os primeiros minutos do filme são deprimentes. O horror de um pronto socorro, os mortos, os gritos, todas aquelas malditas sensações cinestésicas que só um hospital pode oferecer (ainda não consigo me sentir à vontade em hospitais). Você é capaz de sentir o cheiro daquelas salas e corredores cheios.

 

- Temos uma sala grande (no hospital) para matar gente como você.

- Como é? Como você vai me matar?

- Você escolhe: pílulas, gás ou choque.

- Pílulas. Definitivamente pílulas.

 

Mas a direção é do maldito Scorsese, e ele consegue criar pura poesia em uma situação apocalíptica de pós guerra, a guerra das ruas de uma cidade grande. E aí você vai ver o que é stress, amiguinho...

 

- Você jurou que ia me demitir!

- Eu te demito amanhã!

- Mas você tem que ser durão!

- Eu sou durão. Na próxima eu te demito. Juro!!

Nick e Patricia

 

Dias depois e você ainda vai conseguir se lembrar dos gritos assustados daqueles que não recebem um olhar do médico cansado pelo turno de 48 horas direto. Você recorda daquela sensação de impotência frente a dor da pessoa que você ama. E nessa hora você pensa em desistir do filme e voltar pro canto escuro pra chorar em paz. Resista a essa tentação. Ainda tem mais. E sempre existirá a certeza dolorosa de que aquilo é um filme, enquanto a realidade de hospitais (principalmente públicos) é muito mais caótica e fatal.

 

- Você não devia fumar.

- Esses são prescritos pelo médico, em casos críticos eu os uso com uísque.

 

Diálogos inteligentes e cortantes, que sempre te levam a pensar que, realmente, cada momento de tua vida é cênico e merecia platéia. Observem com atenção o momento da ressurreição de Abibeng (Frederick) e notem o cinismo que se trata a religião.

John Goodman

 

- É isso aí, agora chega!! Não agüento mais!!!

 

Quantas vezes você quis dizer isso em seu cotidiano profissional, ao final de uma jornada pesada em um escritório, sala de aula ou balcão de locadora? Quantas vezes o contato com os clientes e patrões e colegas é suficiente para pensar em comprar aquele fuzil de repetição que você viu na web? A diferença é que essa frase é dita no filme por John Goodman, que diz isso depois de limpar a ambulância suja de sangue, pedaços de ossos, manchas de vômito e sangue, muito sangue. Pressão, ritmo, insanidade, fúria. Reparem na médica que faz a triagem no hospital, que dá broncas explícitas em bêbados, junkies, casos perdidos...("E me faça o favor de ter sua próxima parada respiratória em outra cidade!").

Estejam atentos para a cena onde Scorsese usa três ângulos distintos do mesmo momento do rosto de Patricia Arquette (a filha do cardíaco), nos mostrando toda a fragilidade daquele aparente rosto forte e decidido. Em um jogo de três cenas seqüenciais ele desmascara a dor, é tocante. E me perdoem se isso tudo soa piegas, a dor faz isso com a gente. E mais que falar de pessoas ou de relacionamentos, esse filme fala de dor, de sofrimento, de angústia e de gente que se perde em meio a tudo isso, enquanto outros tentam encontrar saídas e rumos para uma vida aparentemente perdida. Entre tantas vidas realmente perdidas.

 

Minha mãe pensou que eu seria freira, porque eu fugi para um convento quando eu tinha 13 anos. Mas eu não queria ser freira, só queria fugir.

 

 

Inesquecível o policial da portaria (Officer Griss) com seus indefectíveis óculos escuros e seu mau humor patológico. Toda a loucura que os profissionais que estão no limite conseguem sentir, e a nossa do dia a dia é brincadeira de garotos. Vivemos bem. Temos condições de voltar para nossos lares aquecidos e mesas abastecidas, geladeiras com opções e conforto emocional daqueles que nos amam. Nosso stress é passeio no parque perto desses que existem aos montes vivendo entre horas, contando apenas com bons companheiros para ver o outro dia surgindo.

 

- Ela não é uma prostituta.

- Ela não, todos nos prostituímos. Nós todos!

 

Faz pensar em tudo que queríamos dizer para aquela pessoa que já morreu, e reparem como é interessante nosso funcionamento, sempre nos preocupamos com as coisas boas que não dissemos a tempo. Mas e os palavrões que não dissemos (ou gritamos), e as porradas que queríamos dar e a criatura morreu antes, as cobranças, as sacanagens, as humilhações, tudo que queríamos e o miserável morre antes da minha satisfação. Como se morrer fosse um passaporte para a imunidade de caráter  para o morto e para nós  todos viram santos e bem intencionados com a morte. Hipocrisia.

 

Olhe para cima, é noite de lua cheia. Vamos ter muito trabalho. Há sangue escorrendo nas ruas... é... vamos nos divertir.

 

 

O momento que você começa a ter interesse maior pelos problemas que pelas soluções, a hora que você passa ao lado do acidente e ao invés de se oferecer para ajudar, você só reduz a marcha para ver o sangue, os machucados. Que tipo de gente doente estamos nos tornando???

 

Deixa eu te dizer uma coisa, essa foi a pior tentativa de suicídio que eu já vi. Sente a pulsação? É aqui que você corta, e é transversal, não de cima pra baixo. Toma meu canivete. Com tanta gente querendo viver e sendo brutalmente morta nas ruas, você me diz que quer morrer, mas não tem coragem de se matar?!?! Você me enoja!

 

Somente Scorsese (tá, e Ridley Scott, claro!) consegue uma cena com um traficante empalado no 14º andar soar poética. O cara pregado na grade discutindo sobre café, dívidas de 10 dólares e mostrando o fogo, a lua, a noite, as luzes da cidade lá embaixo, e isso soa belo. Quase terno.

Por fim, reparem no momento em que Cage desce as escadas para perseguir o sedento Noel. Ali ele desce ao inferno, reparem na luz, nas cores da cena, na sonoplastia, tudo indicando a redenção, o momento em que o personagem finalmente desce ao inferno para se enfrentar, para recuperar sua sanidade e conseguir se perdoar (através de Rose). O momento em que ele hesita na escada é uma das cenas mais bem feitas que já tive o prazer de assistir. Faz lembrar de Dante descendo ao inferno para buscar sua Beatriz, mas sem tanto romance ou candura, apenas o terror ao redor.

Está nas locadoras, na web. Se procuram por um momento que lhe faça pensar, ter saudade, com muita arte, talento e competência, assistam. Depois de tudo que ele fez, Scorsese conseguiu um filme pra ser histórico. E não se preocupem se eu contei muita coisa, se ao longo da coluna eu mostrei muitos diálogos do filme... bons filmes resistem ao tempo... quem sou eu para ameaçá-los??

Em tempos de maiores envolvimentos familiares, em tempos de emoções a flor da pele, é até natural eu me lembrar de um filme desses e querer comentá-lo.

No final só o que nos resta são os mais próximos. Família, amigos, gangue, o que nos identifica e legitima enquanto ser humano. Enquanto é tempo, antes que precisemos buscar Rose para nos redimir, sempre é válido reconhecer a importância e o peso de algumas pessoas em nossas trajetórias.

"Vivendo no limite". Não estamos todos?

 

Há braços!

Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei

eduardoinimigo@gmail.com

http://ogritodoinimigo.blogspot.com

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ComenteComentários sobre a Matéria:
Gosto do filme, apesar de sentir um deja vu com a historia a la taxi driver, mas escorsese é escorsese...seja no limite, seja infiltrado...e agora rolling stones!
De: Allan theallan01@gmail.com
Olá!Gosto muito desse Ator: Nicolas Cage. Gostei de saber q vai nos informar sempre sobre filmes. Amo assistir filmes. Esse não assisti ainda, e com certeza pelos seus comentários, vou chorar mesmo. Tb não consigo me sentir bem em hospitais. Principalmente se me deparar com pacientes em fase terminais. Parabéns pela matéria. Continua nos informando sobre filmes. Amei!!!
De: Cláudia da silva Gomes Fabiano claudinha.gomess@gmail.com
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O Inimigo do rei[2].JPGEduardo Mesquita
Oi. Eu sou O Inimigo do rei, e eu te achei. Esse é o canto em que vou gritar minhas verdades ébrias, minhas idéias furiozzas e apresentar meus convidados e cúmplices. Rock, HQ´s, política, literatura, sexo, poesia, enfim, gritos para quem quiser ouvir.

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