John Goodman
- É isso aí, agora chega!! Não agüento mais!!!
Quantas vezes você quis dizer isso em seu cotidiano
profissional, ao final de uma jornada pesada em um escritório, sala de aula ou
balcão de locadora? Quantas vezes o contato com os clientes e patrões e colegas
é suficiente para pensar em comprar aquele fuzil de repetição que você viu na
web? A diferença é que essa frase é dita no filme por John Goodman, que diz isso
depois de limpar a ambulância suja de sangue, pedaços de ossos, manchas de
vômito e sangue, muito sangue. Pressão, ritmo, insanidade, fúria. Reparem na
médica que faz a triagem no hospital, que dá broncas explícitas em bêbados,
junkies, casos perdidos...("E me faça o favor de ter sua próxima parada
respiratória em outra cidade!").
Estejam atentos para a cena onde Scorsese usa três ângulos
distintos do mesmo momento do rosto de Patricia Arquette (a filha do cardíaco),
nos mostrando toda a fragilidade daquele aparente rosto forte e decidido. Em um
jogo de três cenas seqüenciais ele desmascara a dor, é tocante. E me perdoem se
isso tudo soa piegas, a dor faz isso com a gente. E mais que falar de pessoas ou
de relacionamentos, esse filme fala de dor, de sofrimento, de angústia e de
gente que se perde em meio a tudo isso, enquanto outros tentam encontrar saídas
e rumos para uma vida aparentemente perdida. Entre tantas vidas realmente
perdidas.
Minha mãe pensou que eu seria freira, porque eu fugi para um
convento quando eu tinha 13 anos. Mas eu não queria ser freira, só queria
fugir.
Inesquecível o policial da portaria (Officer Griss) com seus
indefectíveis óculos escuros e seu mau humor patológico. Toda a loucura que os
profissionais que estão no limite conseguem sentir, e a nossa do dia a dia é
brincadeira de garotos. Vivemos bem. Temos condições de voltar para nossos lares
aquecidos e mesas abastecidas, geladeiras com opções e conforto emocional
daqueles que nos amam. Nosso stress é passeio no parque perto desses que existem
aos montes vivendo entre horas, contando apenas com bons companheiros para ver o
outro dia surgindo.
- Ela não é uma prostituta.
- Ela não, todos nos prostituímos. Nós todos!
Faz pensar em tudo que queríamos dizer para aquela pessoa que
já morreu, e reparem como é interessante nosso funcionamento, sempre nos
preocupamos com as coisas boas que não dissemos a tempo. Mas e os palavrões que
não dissemos (ou gritamos), e as porradas que queríamos dar e a criatura morreu
antes, as cobranças, as sacanagens, as humilhações, tudo que queríamos e o
miserável morre antes da minha satisfação. Como se morrer fosse um passaporte
para a imunidade de caráter para o morto e para nós todos viram santos e bem
intencionados com a morte. Hipocrisia.
Olhe para cima, é noite de lua cheia. Vamos ter muito trabalho.
Há sangue escorrendo nas ruas... é... vamos nos divertir.
O momento que você começa a ter interesse maior pelos problemas
que pelas soluções, a hora que você passa ao lado do acidente e ao invés de se
oferecer para ajudar, você só reduz a marcha para ver o sangue, os machucados.
Que tipo de gente doente estamos nos tornando???
Deixa eu te dizer uma coisa, essa foi a pior tentativa de
suicídio que eu já vi. Sente a pulsação? É aqui que você corta, e é transversal,
não de cima pra baixo. Toma meu canivete. Com tanta gente querendo viver e sendo
brutalmente morta nas ruas, você me diz que quer morrer, mas não tem coragem de
se matar?!?! Você me enoja!
Somente Scorsese (tá, e Ridley Scott, claro!) consegue uma cena
com um traficante empalado no 14º andar soar poética. O cara pregado na grade
discutindo sobre café, dívidas de 10 dólares e mostrando o fogo, a lua, a noite,
as luzes da cidade lá embaixo, e isso soa belo. Quase terno.
Por fim, reparem no momento em que Cage desce as escadas para
perseguir o sedento Noel. Ali ele desce ao inferno, reparem na luz, nas cores da
cena, na sonoplastia, tudo indicando a redenção, o momento em que o personagem
finalmente desce ao inferno para se enfrentar, para recuperar sua sanidade e
conseguir se perdoar (através de Rose). O momento em que ele hesita na escada é
uma das cenas mais bem feitas que já tive o prazer de assistir. Faz lembrar de
Dante descendo ao inferno para buscar sua Beatriz, mas sem tanto romance ou
candura, apenas o terror ao redor.
Está nas locadoras, na web. Se procuram por um momento que lhe
faça pensar, ter saudade, com muita arte, talento e competência, assistam.
Depois de tudo que ele fez, Scorsese conseguiu um filme pra ser histórico. E não
se preocupem se eu contei muita coisa, se ao longo da coluna eu mostrei muitos
diálogos do filme... bons filmes resistem ao tempo... quem sou eu para
ameaçá-los??
Em tempos de maiores envolvimentos familiares, em tempos de
emoções a flor da pele, é até natural eu me lembrar de um filme desses e querer
comentá-lo.
No final só o que nos resta são os mais próximos. Família,
amigos, gangue, o que nos identifica e legitima enquanto ser humano. Enquanto é
tempo, antes que precisemos buscar Rose para nos redimir, sempre é válido
reconhecer a importância e o peso de algumas pessoas em nossas trajetórias.
"Vivendo no limite". Não estamos todos?
Há braços!
Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei